De FRENTE com Elexsandro Araújo: Maria Flor, multiartista. 

Elexsandro Araújo: Maria Flor, que alegria te receber. Bem-vinda! Você é Pernambucana? Natural de qual cidade?

Maria Flor: Sim. Recife.

Elexsandro Araújo: O que a música representa em sua vida? O que te levou a mergulhar nesse universo?

Maria Flor: Representa tanto que, como bem diria meu amigo do frevo Ferreirinha, “a palavra não alcança”. Comecei meus estudos e trabalhos artísticos bem cedo. Mas, só aos 14 anos tive a oportunidade de fazer um estudo mais técnico da arte, a partir de uma professora de Educação Física que tive na escola Clóvis Beviláqua. Ela desenvolvia trabalhos artísticos com os alunos (além das aulas mais voltadas para os esportes). Certo dia, em uma das apresentações desses trabalhos artísticos de final de ano, ela convidou uma preparadora corporal chamada Mônica Maria, que era professora do Grupo João Teimoso, para assistir o espetáculo e ofertar duas bolsas de estudo para os dois alunos ou alunas que se destacassem na apresentação. Nós não sabíamos disso. Foi incrível. Fui uma das contempladas. Estudei por muitos anos no João Teimoso. A bolsa era para o Curso de Teatro. Já no começo fui chamada para fazer parte do grupo de teatro e foi ainda mais legal. Acabei conseguindo bolsa para as aulas de dança também. Eu já dançava nas escolas que estudei, mas nada profissional ainda. Então, foi uma oportunidade importante. A partir disso entrei em outras tantas escolas de dança e posteriormente música. Comecei com a música entre 2009 e 2010, na Banda Cabugá. Com este grupo assinei contrato com a Sony Music, tocamos na Fundição Progresso, no Circo Voador… gravamos dois EP’s, videoclipes, etc. Em 2014 entrei no Conservatório Pernambucano de Música. Comecei estudando Canto Popular, depois estudei Violão Erudito e hoje estudo Violão Popular. Além do Conservatório fiz cursos de menor duração em outros espaços como o Paço do Frevo e a UFPE. O Frevo se tornou a manifestação que mais estudo. Tanto na dança quanto na música e na história. Meu mestrado é em música, especificamente sobre o pandeiro no frevo de rua. Todo pandeiro desde a época do teatro.
Além da Cabugá participei de outros inúmeros grupos, como o SerTão Jazz, o Makamo Quinteto e o Gingadinho Trio, e apresentações com outros artistas, como o maestro Spok, o maestro Forró, César Michiles, Almir Rouche, Luciano Magno e por aí vai.
Venho desenvolvendo o meu trabalho solo desde 2019, mas já escrevia minhas músicas desde muuuuuuito antes. Tinha vergonha/receio/medo/dificuldade de aceitação/algo assim… de colocar ele no mundo. Mas, em 2019, finalmente consegui e venho trabalhando nele desde então.

Foto por Luara Olívia.

Elexsandro Araújo: Sabemos que existe toda uma ciência no mundo da música. Você atualmente faz mestrado na área. O que te motivou a entender muito mais a respeito?

Maria Flor: Essa pergunta é bem interessante porque muita gente se surpreende com o ensino formal da música em Conservatórios, mas, principalmente, em Universidades. Muita gente questiona: “E tem graduação/licenciatura em música?” “E tem mestrado em música?” “E vocês fazem o quê no curso?”

Ainda há uma idéia do conhecimento musical ser passado apenas informalmente ou da pessoa “nascer com o dom” e, portanto, já nascer sabendo tocar ou cantar, arranjar… Ter esta formação é importante porque além do conhecimento prático passado por transmissão oral, busco o conhecimento formal, passado nas instituições de ensino da música. Tenho interesse em deixar esta pesquisa acessível para que outras pessoas que se interessam pelo estudo do pandeiro no frevo terem condições de conhecer um pouco mais sobre o assunto, além do aprendizado prático. No meu caso, além da dissertação terei dois recitais que fazem parte da pesquisa. Assim, teremos a informação na prática e na teoria.

Elexsandro Araújo: Você também é cantora, compositora. Qual música marcou sua trajetória até os dias de hoje?

Maria Flor: Sim. Na música eu comecei com o pandeiro, dentro do teatro. Mas, sem muita informação. O canto veio em seguida e já de forma profissional (na Banda Cabugá). Quando comecei já tinha poemas escritos e idéias musicais na cabeça. Mas, tinha vergonha de mostrar. Por isso, as canções que eu interpretava com a banda eram todas do guitarrista. Com o passar dos anos e com as experiências práticas e teóricas fui entendendo que poderia caminhar com esse lance das minhas composições autorais. Quando comecei a atuar na música instrumental passei a escrever música instrumental também… fazer arranjos… escrever partituras… e isso foi crescendo e cresce a cada dia.

Das minhas composições, tem Tem Fé e Otaviano do Monte, que considero importantes para o meu começo. Tem Fé ainda não está gravada oficialmente. Tenho só um vídeo simples que gravei enquanto estudava e postei no Instagram. Otaviano do Monte é um choro instrumental que compus em homenagem ao Mestre Chocho – ele era o chorão mais antigo do Brasil em atividade. Eu tocava no regional de choro dele. Ele faleceu em 2020 com a Covid. Ah, antes dela teve Desequilibrando, uma outra composição instrumental minha em parceria com outro instrumentista com quem eu tocava. Gravamos ela a partir de um projeto do Paço do Frevo chamado Fábrica de Frevo.

Choro instrumental com compus em homenagem ao mestre Chocho.

Cor de Maria e Status eu tenho gravadas e disponíveis nas plataformas digitais. Acredito que elas são muito importantes por serem as primeiras.

Tenho outras inúmeras escritas que venho estudando e preparando para quando puder gravar, lançar e circular tocando e cantando elas pelo mundo.

Elexsandro Araújo: Agora, me responda com apenas uma palavra:

Amor? Base.

Fé? Meio.

Família? Amor.

Amigos? Amor.

Elexsandro Araújo: Maria Flor por Maria Flor?

Maria Flor: Adoro carinho (seja dando ou recebendo). Gosto de conversar, mas, percebo que tenho sido mais observadora com o passar dos anos e menos falante. Gosto mais do frio que do calor. Não uso maquiagem no dia a dia. Adoro assistir concertos. Não gosto de estresse e sempre busco resolver as coisas com tranquilidade. Gosto de estudar.

Sempre falei pouco sobre mim nos trabalhos rs. Pago certo preço por isso. Muitas mulheres tem sua história diluída de alguma forma. Mas, tenho muitos amigos especiais que me ajudam nisso rs. Eu me sinto arte o tempo todo. Sou formada em Direito. Não gostaria de seguir na área, mas também acho que o direito andou comigo desde cedo. Não necessariamente do direito formal, mas da necessidade de lutar por direitos e melhorias por onde passei.

Fiz parte do Comitê Gestor de Salvaguarda do Frevo até o ano passado. Saí por conta do mestrado. Mas, faço parte ainda do Conselho Consultivo do Paço do Frevo – ConPaço. Me sinto frevo. Vejo frevo como uma manisfestação enorme e não apenas como música ou como dança, nem como algo do carnaval. Vejo como algo muito mais amplo e importante. Me fortaleci nele.

Eu falo pouco da vida pessoal nas redes. Na verdade falo pouco nas redes rs. Tenho uma ligação muito mais forte com pessoas do que com coisas, desde sempre. Tenho amigos muito fiéis. Gosto muito de dançar e de praticar esportes. Corro, danço, pedalo longas distâncias, adoro comer, gosto de receber pessoas, mas sempre em pequena quantidade. Não como nada de origem animal. Adoro branco, preto, verde e vermelho.

@mariaflor_multiartista

Gratidão por sua brilhante participação!

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